...

Cláusula de hardship ajuda contratos a atravessarem mudanças econômicas

Um contrato é assinado hoje. O preço está definido, as margens foram calculadas e as condições comerciais parecem adequadas.

Mas esse mesmo contrato pode permanecer em vigor por três, cinco ou dez anos.

Nesse período, custos de insumos podem aumentar de forma extraordinária, o câmbio pode sofrer oscilações relevantes, mudanças regulatórias podem alterar custos e a própria Reforma Tributária pode modificar a carga econômica considerada na formação do preço.

O contrato continua válido e as obrigações permanecem exigíveis. Mas a operação pode deixar de fazer sentido nas condições inicialmente negociadas.

É justamente nesse cenário que a Cláusula de Hardship ganha importância.

Ela permite que as partes estabeleçam previamente como lidar com mudanças extraordinárias capazes de afetar de forma relevante o equilíbrio econômico do contrato.

Hardship não é força maior

A força maior está normalmente relacionada a eventos que impedem ou dificultam o cumprimento de determinada obrigação, podendo afastar a responsabilidade da parte pelo inadimplemento.

A hardship parte de uma situação diferente: cumprir ainda é possível, mas as condições econômicas do contrato mudaram de forma relevante.

Imagine um contrato de fornecimento celebrado com base em determinado custo de matéria-prima. Se esse custo aumenta de forma extraordinária, o fornecedor pode continuar entregando, mas talvez passe a executar o contrato com prejuízo.

A finalidade da hardship não é simplesmente liberar a parte de sua obrigação.

É criar um procedimento para avaliar o impacto da mudança e, quando preenchidos os requisitos previstos no contrato, renegociar suas condições para preservar a relação. Em síntese:

“a força maior trata das consequências do impedimento ao cumprimento; a hardship busca adaptar o contrato para que ele continue sendo executado”.

Por que não depender apenas da lei?

O Código Civil prevê mecanismos de revisão e resolução contratual em situações excepcionais de desequilíbrio superveniente.

Isso, porém, não significa que qualquer aumento de custo, redução de margem ou alteração econômica autorize automaticamente a revisão do contrato.

Nas relações empresariais, oscilações ordinárias de mercado integram o risco da atividade, e o próprio Código Civil prestigia a alocação de riscos definida pelas partes e a excepcionalidade da revisão contratual.

Por isso, existe uma diferença importante entre tentar discutir judicialmente um desequilíbrio depois que ele ocorreu e ter um contrato que já defina como esse desequilíbrio será tratado.

Uma cláusula de hardship bem estruturada permite definir previamente:

  • quais eventos podem gerar revisão;
  • qual impacto econômico será considerado relevante;
  • como esse impacto deverá ser comprovado;
  • como ocorrerá a renegociação; e
  • o que acontecerá se as partes não chegarem a um acordo.

Quanto mais claros forem esses critérios, menor será o espaço para conflito.

E o que a Reforma Tributária tem a ver com isso?

Muito.

A transição para o IBS e a CBS cria um cenário especialmente relevante para contratos de médio e longo prazo.

Empresas que celebram hoje contratos com duração de cinco ou dez anos estarão contratando durante uma profunda transformação do sistema tributário brasileiro.

A Reforma Tributária já é conhecida e, portanto, não deve ser tratada simplesmente como um acontecimento imprevisível.

O que ainda pode ser incerto é o impacto econômico concreto da transição sobre cada operação.

Alíquotas, regras de creditamento, benefícios fiscais, regimes específicos e formas de recolhimento podem alterar a carga econômica considerada quando o preço foi originalmente formado.

Por isso, a pergunta relevante para os novos contratos não é apenas:

“A Reforma Tributária permite rever o contrato?” Mas sim:

“Se a Reforma Tributária alterar de forma relevante a equação econômica considerada na formação do preço, como o contrato tratará esse impacto?”

Se o contrato não responder a essa pergunta hoje, as partes terão de respondê-la quando o problema já existir.

Alteração de alíquota não significa, necessariamente, aumento equivalente do preço

Esse cuidado é especialmente importante na Reforma Tributária.

Uma cláusula contratual não deveria prever que qualquer aumento de alíquota será automaticamente repassado ao comprador.

O impacto deve ser analisado de forma econômica.

Com a substituição de tributos atuais pelo IBS e pela CBS, também poderão ocorrer alterações no aproveitamento de créditos, na cumulatividade e em outros componentes da carga tributária.

Por isso, a análise deve considerar o impacto tributário líquido da mudança, e não apenas uma nova alíquota nominal.

O objetivo de uma cláusula bem estruturada não é criar uma autorização automática para aumento de preço. É preservar a equação econômica que justificou a contratação.

O que uma boa cláusula de hardship deve prever?

Não existe uma redação única aplicável a todos os contratos.

Uma previsão genérica de que “as partes renegociarão o contrato em caso de alteração relevante das condições econômicas” pode ser insuficiente.

Uma cláusula mais eficiente deve definir, conforme a realidade da operação:

  • os eventos que podem acioná-la;
  • um critério mínimo de materialidade;
  • a metodologia de cálculo do impacto;
  • a documentação necessária;
  • o prazo e o procedimento de renegociação;
  • as regras aplicáveis durante a negociação; e
  • a solução para eventual impasse.

Esses elementos transformam a hardship de uma declaração genérica de intenção em um verdadeiro mecanismo de gestão de riscos contratuais.

A proteção precisa ser apenas do vendedor?

Não.

Dependendo da estrutura do negócio, a cláusula pode ser bilateral.

Se uma mudança extraordinária aumentar de forma comprovada o custo suportado pelo fornecedor, poderá existir fundamento para revisão do preço.

Mas, se a mesma mudança reduzir significativamente essa carga ou gerar benefício econômico diretamente relacionado à operação, o comprador também poderá ter direito à revisão.

Essa lógica reforça o objetivo central da hardship: preservar o equilíbrio contratual, e não simplesmente transferir riscos de uma parte para outra.

Naturalmente, a distribuição desses riscos pode variar conforme o contrato, o poder de negociação das partes e a capacidade de cada uma administrar determinado evento.

O importante é que essa alocação seja consciente e expressamente tratada.

Contratos antigos também merecem atenção

A preocupação não deve se limitar aos novos contratos.

Empresas com contratos de fornecimento, compra e venda, prestação continuada, construção, logística, locação empresarial ou outras relações de longo prazo deveriam avaliar se seus instrumentos atuais estão preparados para mudanças econômicas relevantes e para os efeitos da Reforma Tributária.

Algumas perguntas ajudam nessa revisão:

  • Os tributos estão incluídos no preço?
  • Há previsão para criação, extinção ou alteração de tributos?
  • O contrato considera aumento e redução da carga econômica?
  • Existe mecanismo de revisão do preço?
  • A cláusula de hardship é suficientemente objetiva?
  • As regras de hardship, reajuste, força maior e tributos são coerentes entre si?
  • O contrato permanecerá vigente durante a transição para o IBS e a CBS?

Em alguns casos, nenhuma mudança será necessária.

Em outros, pode ser recomendável revisar o modelo contratual ou celebrar um aditivo antes que o impacto econômico aconteça.

Contratos não precisam prever o futuro. Precisam saber lidar com ele.

Nenhum contrato é capaz de antecipar todas as mudanças econômicas que poderão ocorrer durante sua vigência.

Mas um contrato bem estruturado deve identificar os principais riscos, definir quem os assume e estabelecer mecanismos para lidar com situações capazes de alterar significativamente a relação.

A hardship cumpre justamente essa função.

No atual cenário de transformação econômica e tributária, revisar contratos apenas quando surge um conflito pode significar agir tarde demais.

A Reforma Tributária oferece uma oportunidade para que as empresas revisem não apenas suas cláusulas tributárias, mas também a própria arquitetura dos contratos de médio e longo prazo.

Mais importante do que verificar se o contrato possui uma cláusula de hardship é avaliar se ela realmente funcionaria quando necessária.

A equipe do GNL Advogados está à disposição para apoiar empresas na revisão de contratos e modelos contratuais, na avaliação dos impactos da Reforma Tributária e na construção de mecanismos de alocação de riscos e reequilíbrio adequados à realidade de cada operação.

Luigi Ribeiro
Contratos

Compras, contratos e fornecedores: O que a desorganização oculta pode custar à sua empresa

Existe uma cena que se repete em empresas dos mais variados portes e segmentos. Alguém precisa contratar um serviço ou adquirir um produto com certa urgência, o fornecedor já foi acionado, a negociação está avançada e ninguém ainda se perguntou se existe um contrato assinado, se esse fornecedor tem cadastro regularizado ou se o que foi acertado verbalmente vai algum dia se transformar em um documento com força vinculante.

Essa cena acontece todos os dias. E o que começa como agilidade frequentemente termina em disputa de valores, serviços inacabados, penalidades não aplicadas ou responsabilidades que a empresa jamais pretendia assumir.

Não é por falta de boa-fé. É, na maior parte das vezes, por falta de estrutura.

1. A cadeia de suprimentos existe mesmo que você não a tenha desenhado

Toda empresa que compra algo, seja um serviço de limpeza, seja um projeto de engenharia de milhões de reais, possui uma cadeia de suprimentos. O que varia é o grau de organização dessa cadeia.

O fluxo básico é simples: parte de uma solicitação de compra, passa por uma fase de negociação e cotação com fornecedores, envolve análise das condições a serem contratadas, chega à elaboração e revisão de minutas, à assinatura do contrato e, por fim, à gestão da execução ao longo de toda a vigência. Na teoria, parece linear. Na prática, o que mais se vê são atalhos tomados em cada uma dessas etapas. E atalhos num processo que envolve dinheiro, terceiros e obrigações legais raramente são inofensivos.

O maior problema não está nas etapas que as empresas reconhecem como problemáticas. Está nas que nem percebem que estão erradas.

2. As dores mais comuns, e por que elas se repetem

Ao longo de projetos de diagnóstico e reestruturação da cadeia de suprimentos em empresas de diferentes segmentos, alguns padrões aparecem com uma frequência que seria surpreendente se não fosse tão esperada.

  1. A política de compras que existe no papel, mas não é praticada. Muitas empresas têm normas escritas. Uma quantidade considerável delas não as aplicam com consistência. Quando perguntados, os próprios colaboradores frequentemente desconhecem partes relevantes da política que deveriam seguir. Isso não é negligência individual: é ausência de treinamento e de mecanismos que garantam a aderência ao longo do tempo.
  2. Fornecedores cadastrados sem o devido cuidado. Cadastrar um fornecedor parece simples, mas envolve um checklist que poucas empresas têm formalizado: documentos societários atualizados, certidões fiscais e previdenciárias, regularidade junto a órgãos regulatórios do setor. Fornecedor com documentação vencida ou situação irregular pode representar responsabilidade solidária ou subsidiária para a contratante, seja em matéria trabalhista, previdenciária ou fiscal. E quando essa verificação não é periódica, o problema muitas vezes só aparece quando já é tarde.
  3. Minutas de contrato genéricas, para tudo. Uma minuta padrão usada tanto para contratos de manutenção quanto para prestação de serviços técnicos especializados ou para fornecimento de materiais é uma proteção jurídica fraca em todos esses casos. Cada tipo de contratação tem riscos específicos que demandam cláusulas específicas (cláusulas de retenção técnica, penalidades calibradas ao risco, garantias adequadas ao objeto dentre outras). Usar o mesmo modelo para tudo é o equivalente a dar a mesma receita para doenças diferentes.
  4. Condições Gerais de Compra ausentes ou incompletas. Esse é um documento que deve acompanhar todos os pedidos de compra e contratos mais simples, estabelecendo as regras do jogo de forma padronizada. Sem elas, ou com versões desatualizadas ou incompletas, cada negociação começa do zero, demora mais, expõe mais e protege menos. É uma lacuna que parece pequena até o dia em que um fornecedor invoca a ausência delas para esquivar-se de uma obrigação.
  5. Execução sem gestão. O contrato foi assinado. Ótimo. Mas o gestor responsável por acompanhar a execução leu o contrato? Sabe quais são as penalidades aplicáveis em caso de atraso? Sabe como formalizar uma comunicação relevante com o fornecedor para que ela tenha valor jurídico depois? Em muitos casos, a resposta é não. E o reflexo aparece quando algo dá errado: ninguém sabe bem o que o contrato prevê, os prazos para notificação já passaram, e os meios de prova do descumprimento simplesmente não existem.
  6. O jurídico acionado tarde demais. Seja o departamento interno ou o escritório externo, a assessoria jurídica costuma ser envolvida quando o problema já está configurado. A tendência natural é evitar custos e atrasos, mas o que se vê na prática é exatamente o oposto: envolver o jurídico preventivamente, antes da assinatura e antes do problema virar litígio, é invariavelmente mais barato e mais eficiente do que remediar depois.

3. O que está em jogo quando isso não é endereçado

Os impactos de uma cadeia de suprimentos desorganizada não são apenas operacionais. São financeiros, jurídicos e reputacionais.

Do ponto de vista financeiro: compras realizadas às pressas por falha no planejamento têm custo médio superior ao de compras programadas. Fornecedores que não entregam conforme o contratado e não sofrem penalidades por isso custam mais, seja em retrabalho, atrasos e substituições. Retenções técnicas não previstas contratualmente transformam inadimplementos do fornecedor em prejuízo exclusivo da empresa.

Do ponto de vista jurídico: a ausência de formalização abre espaço para discussões sobre o que foi ou não foi acordado. Alterações pós-assinatura sem aditivo contratual geram insegurança nas duas pontas. E compras realizadas sem contrato assinado, o chamado início de execução sem formalização, colocam a empresa numa posição de dependência desnecessária em relação ao fornecedor, com poucos instrumentos para exigir o cumprimento do que foi negociado.

Do ponto de vista de governança: empresas que se submetem a auditorias externas, têm acionistas que exigem transparência, buscam certificações de qualidade ou simplesmente querem crescer com previsibilidade precisam de processos documentados, rastreáveis e consistentes. A cadeia de suprimentos é um dos primeiros pontos de atenção nesses processos, e um dos primeiros a expor fragilidades.

4. Por onde começar a organizar a casa

A boa notícia é que a reestruturação da cadeia de suprimentos não exige uma revolução imediata. O que exige é método.

O ponto de partida é um diagnóstico honesto: entender como os processos funcionam de fato, não como deveriam funcionar no papel, mas como funcionam na prática, com quem os executa e com quais ferramentas. Esse mapeamento identifica os principais riscos e permite priorizar ações com base no impacto real de cada vulnerabilidade. Compras emergenciais recorrentes têm uma causa raiz que pode ser diferente de empresa para empresa. Contratos problemáticos podem ter origem no processo de negociação, na qualidade das minutas ou na ausência de alçadas de aprovação claras. Só o diagnóstico diz.

A partir daí, a implementação pode ser construída de forma graduada: primeiro os documentos estruturantes, tais como política de compras atualizada e praticável, condições gerais de compra revisadas, minutas específicas por tipo de contratação, formulários de requisição e checklist de cadastro de fornecedores. Depois, a formalização dos fluxos: quem pode solicitar o quê, em que prazo, com qual nível de aprovação, com qual envolvimento do jurídico. E, por fim, o trabalho de sustentação, que é justamente onde a maioria dos projetos peca.

5. Por que treinar é insubstituível

Um processo bem desenhado que ninguém conhece é quase tão ineficiente quanto não ter processo.

Os colaboradores que solicitam compras, os que negociam com fornecedores, os que gerenciam contratos em execução, todos precisam entender as regras, os documentos que passam pelas suas mãos e o que se espera deles em cada etapa. Esse entendimento não acontece sem treino e não basta ser comunicado uma vez.

Treinamentos não precisam ser longos ou solenes para serem eficazes. Atualizações pontuais sobre mudanças específicas, sessões práticas sobre os documentos que o time usa no dia a dia, programas de integração para novos colaboradores, mensagens rápidas e intuitivas sobre pontos de conhecimento (chamadas pílulas do conhecimento), e revisões periódicas com os fornecedores sobre as regras que os vinculam fazem uma diferença concreta na aderência dos processos ao longo do tempo. É o que transforma um conjunto de documentos num modo de operar de verdade.

6. Os ganhos que uma cadeia bem estruturada traz

Os ganhos tangíveis são mensuráveis: redução do tempo de ciclo de compras, queda na incidência de contratos refeitos por lacunas ou erros, menor frequência de compras emergenciais, histórico rastreável de fornecedores e contratações que facilitam auditorias, renegociações e eventuais disputas. Projetos bem executados de reestruturação da cadeia de suprimentos têm reduzido em mais de 70% o nível de risco de vulnerabilidades que antes eram classificadas como críticas.

Os ganhos intangíveis são igualmente relevantes: uma relação com fornecedores mais clara e menos conflituosa, menos desgaste interno entre as áreas que participam desse processo (suprimentos, jurídico, financeiro e operacional costumam ter atritos cuja raiz está exatamente nessa falta de estrutura), e uma percepção de profissionalismo que se reflete na forma como a empresa é vista pelo mercado.

E há ainda um ganho que muitas vezes é subestimado: a segurança de saber que, se algo der errado, a empresa tem documentação suficiente para se defender.

7. Uma última reflexão

A cadeia de suprimentos nem sempre é tratada como prioridade. Isso até o momento em que um problema grave aparece. E quando aparece, a pergunta que vem junto é sempre a mesma: “como isso nunca foi organizado antes?”

Estruturar processos de compras, contratos e gestão de fornecedores não é uma demanda exclusiva de grandes corporações. É uma necessidade de qualquer organização que queira crescer com previsibilidade, reduzir exposição a riscos e tomar decisões com base em informação confiável.

A pergunta que fica é simples: quanto da sua cadeia de suprimentos funciona como você acredita que funciona?

Luigi Ribeiro
Contratos Empresariais